Posted by : Centro de Estudos Bahia segunda-feira, 29 de junho de 2015


Para Octavio Ianni, a questão social se torna mais evidente, como desafio, nas épocas de crise. Porque neste período os mais diversos setores da sociedade passam a se interessar pelo o desenvolvimento social na perspectiva de resolver, identificando, vários problemas relacionados à questão social.

No seu contexto histórico, a questão social foi vista por duas interpretações divergentes. Uma considera essa questão como algo disfuncional, anacrônico, retrasado, em face do que é a modernização alcançada em outras esferas da sociedade, como na economia e organização do poder estatal. Criando dualismos, como arcaico e moderno e dois “brasis”. Outros afirmam que suas manifestações são uma ameaça a ordem social vigente, a harmonia entre o capital e o trabalho e a paz social. E há os que a vêem como produto e condição da sociedade do mercado.
Na sociedade brasileira a questão social é um tema recorrente, influenciando a pratica de muitos, fazendo parte do cotidiano da história brasileira. Ianni explica citando o fato dela persistir durante um século de república, compreendendo a oligarquia, o governo populista de Getúlio Vargas, o regime militar e os dias atuais, apresentando- se como um problema nacional, refletindo disparidades econômicas, políticas e culturais, envolvendo classes sociais, grupos raciais e formações regionais. O autor exemplifica no texto os exemplos de problemas impostos pela questão social ao decorrer desse século no Brasil e demonstra que no curso da história a sociedade em movimento apresenta- se como uma vasta fábrica de desigualdades que constituem a questão social, sendo que a prosperidade da economia e o fortalecimento do poder estatal são desproporcionais ao desenvolvimento social.
Para Ianni, a questão social apresenta diferentes aspectos econômicos, políticos e culturais, envolvendo, principalmente, operários, outras, camponeses, negros, índios. Observando em perspectiva ampla, é possível constatar que a questão social recebe não só diferentes denominações, como também, distintas explicações, influenciadas pelo evolucionismo, darwinismo social, arianismo, positivismo, catolicismo, liberalismo, neoliberalismo, estruturalismo, marxismo e outras correntes de idéias. Segundo o autor, por exemplo, Nina Rodrigues falava em coletividades anormais, referindo-se aos lavradores paupérrimos (pobres, miseráveis) de Canudos. Oliveira Viana preconizava soluções autoritárias, compreendendo o Estado forte, ao alegar que a sociedade civil era incapaz; e combinava autoritarismo e arianismo, europeização da população pelo incentivo à imigração, alegando limitações nos índios, negros e mestiços.
Ianni, afirma que os setores sociais dominantes revelam uma séria dificuldade para se posicionarem em face das reivindicações econômicas, políticas e culturais dos grupos e classes subalternas. Em vários estudos realizados ao decorrer do tempo comprova-se que os indicadores sociais não correspondem aos econômicos, devido a negligência ou incapacidade dos setores sociais “carentes”, “marginais”, “periféricos”, existindo então dois “brasis”, não só diversos, mas estranhos entre si, sendo que parecem heterogêneos, apesar de mesclados.
Segundo Hélio Jaguaribe há o “dualismo social” que prejudica a organização da sociedade brasileira, de um lado a “moderna sociedade industrial”, que já é a oitava economia mundial e, de outro, está uma sociedade primitiva, vivendo em condições de subsistência, no mundo rural ou em condições de miserabilidade urbana. No entanto, explica- se esse dualismo nas suas reciprocidades, ou seja, um é condição do outro. A reprodução familiar da ignorância e da miséria manteve- se, no decorrer da história, no curso de quatro gerações que nos separam da Abolição, o dualismo básico entre os participantes e excluídos dos benefícios da civilização brasileira.
A economia e a sociedade, a produção e as condições de trabalho, o capital e o trabalho, a mercadoria e o lucro, o pauperismo e a propriedade privada capitalista reproduzem-se reciprocamente. Segundo Ianni, “o pauperismo não se produz do nada, mas da pauperização". O desemprego e o subemprego são manifestações do fluxo e refluxos dos ciclos de negócios. A miséria, a pobreza e a ignorância, em geral são ingredientes desse processo”, explicando assim que a questão social, apesar dessas relações recíprocas a questão social acaba por ser “naturalizada”. Há duas explicações, destacadas, para a explicação da naturalização da questão social, uma tende a transformar as manifestações da questão social em problema da assistência social, outra tende a transformar as manifestações da questão social, em problemas e violência e caos, “solucionando-a” com segurança e repressão.
Para Ianni, a história da questão social no Brasil pode ser vista como a história das formas de trabalhos, com uma reiterada apologia do trabalho, uma pedagogia antiga, contínua e presente. Sempre estando em curso. 

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